segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Mitologia Grega - Aquelau e Hércules.

NENHUMA IMAGEM ENCONTRADA.

O rio-deus Aquelau contou a história de Erisíchton a Teseu e seus companheiros, enquanto os retinha em sua margem hospitaleira, onde tiveram de aguardar que baixassem as águas. Ao terminar a narração, acrescentou: — Por que, porém, contar-vos as transformações de outras pessoas, quando eu próprio sou um exemplo da posse de tal poder? Às vezes, transformo-me em serpente e outras vezes, em um touro, com chifres na cabeça, ou melhor seria dizer que outrora podia fazer tal coisa; agora, só me resta um chifre, pois perdi o outro. E, nesse ponto, deu um gemido e calou-se. Teseu indagou-lhe a causa de seu pesar e como perdera o chifre, ao que o rio-deus respondeu da seguinte forma: — Quem se apraz em contar as próprias derrotas? Não hesitarei, contudo, em relatar a minha, consolando-me com a grandeza do meu vencedor, que foi Hércules. Talvez já tenhais ouvido falar em Dejanira, a mais linda das donzelas, a quem uma multidão de pretendentes procurava conquistar. Eu e Hércules estávamos entre eles, e os demais não se atreveram a competir conosco. Hércules apresentava a seu favor o fato de descender de Jove e seus trabalhos, com os quais fora além das exigências de sua madrasta Juno. Eu, por meu lado, disse ao pai da donzela: "Olha-me, sou o rei das águas que correm através de tuas terras. Não sou estrangeiro, vindo de um litoral distante, mas pertenço ao País, faço parte de teu reino. A real Juno não me tem inimizade nem me castiga com trabalhos pesados. Quanto a esse homem que se proclama filho de Jove, ou é um impostor, ou desgraçado dele se for verdade, por isso será a vergonha para sua mãe." Hércules encarou-me enfurecido e só com muita dificuldade se conteve. "Meu braço responderá melhor que minha língua", disse ele. "Concedo-te a vitória verbal, mas confio minha causa à prova dos fatos." Assim dizendo, investiu contra mim e, depois do que dissera, senti-me envergonhado de recuar. Despi minhas vestes verdes a apresentei-me para a luta. Hércules tratou de atirar-me ao chão, atacando, ora minha cabeça, ora meu corpo. Eu tinha em meu tamanho a proteção e seus ataques foram vãos. Paramos durante algum tempo, depois voltamos à luta. Mantínhamos nossa posição, dispostos a não ceder, disputando passo a passo o terreno, eu curvado sobre ele, apertando sua mão nas minhas, com a testa quase encostada na sua. Por três vezes Hércules tentou atirar-me ao chão e, da quarta vez, conseguiu e cavalgou-me. Eu vos digo a verdade: era como se uma montanha tivesse caído sobre as minhas costas. Lutei para libertar os braços, respirando ofegante e coberto de suor. Hércules não me deu oportunidade de livrar-me e agarrou-me o pescoço. Meus joelhos estavam em terra, minha boca no pó. Compreendendo que não podia competir com ele na arte da guerra, recorri a outros meios e escapei, rastejando, sob a forma de uma serpente. Enrosquei o corpo e silvei, ameaçando o adversário com a língua bipartida. Ele, vendo isso, sorriu, desdenhosamente, e exclamou: "Era trabalho de minha infância, vencer serpentes." Assim dizendo, agarrou-me pelo pescoço. Vencido sob essa forma, tentei a única saída que me restava e transformei-me em touro. Hércules mais uma vez segurou-me pelo pescoço e, encostando minha cabeça no chão, atirou-me à areia. E não se deu por satisfeito. Sua mão implacável arrancou-me o chifre da cabeça. As náiades o recolheram, consagraram-no e encheram-no de flores olorosas. A Fartura tomou-o como seu e chamou-o "Cornucópia". Os antigos compraziam-se em encontrar um sentido oculto em suas lendas mitológicas. Explicam esse combate de Aquelau com Hércules dizendo que o Aquelau era um rio que transbordava de seu leito, na estação chuvosa e, quando a lenda diz que ele amava Dejanira e procurava a ela se unir, isso quer dizer que o rio, em seus meandros, corria através do reino de Dejanira. Dizia-se que tomava a forma de uma serpente por causa de seu curso sinuoso e de um touro pela sua violência e fragor de suas águas. Nas cheias, o rio corria por outro canal. Assim, sua cabeça tinha chifres. Hércules impediu a ocorrência dessas inundações periódicas, por meio de barragens e canais, e foi dito, assim, que vencera o rio-deus e lhe arrancara um chifre. Finalmente, as terras sujeitas à inundação tornaram-se, depois de protegidas, fertilíssimas e isso é explicado pela cornucópia. Há outra versão da origem da cornucópia. Quando nasceu, Júpiter foi entregue por sua mãe, Réia, aos cuidados das filhas de Melisseu, um rei cretense, que alimentaram o deus infante com o leite da cabra Amaltéia. Júpiter quebrou um dos chifres dessa cabra e deu-o às suas amas, atribuindo-lhe o poder mágico de se encher com aquilo que desejasse seu dono. O nome de Amaltéia também é atribuído por alguns autores à mãe de Baco. Assim foi usado por Milton, no Livro IV do Paraíso Perdido:

...Na ilha niseniana,
Pelo Tristão cingida, o velho Cã,
Dos gentios o Amon dos líbios Jove,
Escondeu Amaltéia e o jovem Baco,
Seu filho, da madrasta intolerante.

ADMETO E ALCESTES

Esculápio, filho de Apolo, foi dotado por seu pai de tal habilidade na arte de curar que chegava até a restituir a vida aos mortos. Plutão alarmou-se com isso e conseguiu que Júpiter o fulminasse com um raio. Apolo, indignado com a morte do filho, tratou de vingar-se nos inocentes trabalhadores que haviam construído o raio. Eram os ciclopes, que tinham sua oficina sob o Monte Eta, do qual estão constantemente saindo as chamas e a fumaça provindas daquela oficina. Apolo desfechou suas setas contra os ciclopes, o que irritou Júpiter a tal ponto que o condenou a tornar-se servo de um mortal, durante um ano. Assim, Apolo foi servir a Admeto, Rei da Tessália, tomando conta de seus rebanhos, nas verdejantes margens do Rio Afrisos. Admeto era um dos pretendentes à mão de Alcestes, filha de Pélias, que a prometera àquele que a fosse procurar num carro puxado por leões e javalis. Admeto executou uma tarefa, com a ajuda de seu divino pastor, e foi premiado com Alcestes. Admeto, porém, adoeceu e, estando às portas da morte, Apolo conseguiu que as Parcas o poupassem, com a condição de que alguém se dispusesse a morrer em seu lugar. Muito alegre com essa esperança, Admeto não se preocupou muito com o resgate, talvez se lembrando dos protestos de dedicação que ouvira muitas vezes da boca dos cortesãos e dos servos. Pensou que seria muito fácil encontrar um substituto. Tal não se deu, porém. Guerreiros valentes, que, de boa vontade, arriscavam a vida por seu príncipe, recuavam ante a idéia de morrer por ele num leito de enfermo, e os servos que lhe deviam benefícios e que se encontravam a serviço de sua casa desde a infância não se dispunham a sacrificar os poucos dias que lhes restavam para mostrar sua gratidão. "Por que um de seus pais não se sacrifica?" perguntavam. "De acordo com as leis da natureza, eles não poderão viver muito mais e quem estará mais indicado que eles para resgatar uma vida a que deram origem?" Os pais, contudo, por mais pesarosos que estivessem ante a iminência de perder o filho, não atendiam ao apelo para salvá-lo. Então, Alcestes, com admirável abnegação, ofereceu-se como substituta. Admeto, por mais amor que tivesse à vida, não desejava mantê-la a tal custo, mas não havia remédio. A condição imposta pelas Parcas fora satisfeita e o decreto era irrevogável. Alcestes adoeceu, ao passo que Admeto se restabelecia, e aproximava-se rapidamente da sepultura. Justamente nessa ocasião, Hércules chegou ao Palácio de Admeto e encontrou todos os moradores pesarosíssimos, ante a iminência da morte da dedicada esposa e querida senhora. Hércules, para quem não havia trabalho bastante árduo, resolveu tentar salvar a rainha. Ficou na porta do seu quarto e, quando a Morte chegou à procura de sua presa, agarrou-a e obrigou-a a desistir de sua vítima. Alcestes restabeleceu-se e foi restituída ao marido.

Milton faz alusão a Alcestes em seu "Soneto sobre a esposa morta":

Tive a impressão de ver minha esposa querida
Voltando a consolar a minha desventura,
Como Alcestes também roubada a sepultura
Pelo filho de Jove, pálida e abatida

ANTÍGONA.

O sexo feminino desempenha importante papel na mitologia grega, quer quanto ao número de personalidades interessantes, quer pelo valor dos atos praticados. Antígona foi um exemplo tão belo de amor filial e fraternal quanto Alcestes de amor conjugai. Era filha de Édipo e Jocasta, que, com todos os seus descendentes, foram vítimas de um destino inelutável, que os condenou à destruição. Em seus acessos de loucura, Édipo arrancara os olhos e foi expulso de seu reino, Tebas, temido e abandonado por todos os homens, como objeto da vingança dos deuses. Antígona, sua filha, compartilhou sozinha de suas peregrinações e ficou com ele até sua morte, regressando, então, a Tebas. Seus irmãos, Etéocles e Polinice, haviam combinado dividir o reino entre si e reinarem alternadamente, cada um durante um ano. O primeiro ano coube a Etéocles, que, quando expirou o prazo, negou-se a entregar o reino ao irmão. Polinice fugiu para junto de Adrastos, Rei de Argos, que lhe deu sua filha em casamento e ajudou-o, com um exército, a sustentar sua pretensão ao trono. Isso acarretou a famosa expedição dos "Sete Contra Tebas", que deu muito assunto aos poetas épicos e trágicos da Grécia. Anfiarus, cunhado de Adrastos, opôs-se à empresa, pois era vidente e sabia, graças à sua arte, que nenhum dos chefes, com exceção de Adrastos, voltaria vivo. Contudo, Anfiarus, quando se casara com Erifila, irmã do rei, concordara que qualquer divergência surgida entre ele e Adrastos seria resolvida por Erifila. Sabendo disso, Polinice deu a Erifila o colar de Harmonia, conquistando-a, desse modo, para a sua causa. Esse colar fora um presente que Vulcano oferecera a Harmonia, quando essa se casou com Cadmo, e Polinice levara-o consigo, ao fugir de Tebas. Erifila não pôde resistir à tentação do suborno e, graças à sua decisão, a guerra se tornou inevitável e Anfiarus foi condenado a um destino fatal. Ele participou valentemente da luta, mas não pôde evitar a fatalidade de seu destino. Perseguido pelo inimigo, fugia ao longo do rio quando um raio lançado por Júpiter abriu a terra e ele, seu carro e o cocheiro foram tragados. Não haveria espaço aqui para descrever todos os atos de heroísmo ou atrocidade que assinalaram a luta; não devemos, contudo, omitir a fidelidade de Evadne, em contraste com a fraqueza de Erifila. Capaneu, marido de Evadne, no ardor do combate, afirmou que abriria caminho até a cidade, a despeito do próprio Jove. Encostou uma escada na muralha e subiu, mas Júpiter, ofendido com suas palavras impiedosas, fulminou-o com um raio. Quando seu funeral foi celebrado, Evadne atirou-se à pira e morreu. No começo da luta, Etéocles consultou o adivinho Tirésias sobre o seu desenrolar (Tirésias, em sua juventude, vira, por acaso, Minerva se banhando. Furiosa, a deusa privou-o da visão, porém mais tarde, abrandando-se, concedeu-lhe, como compensação, o conhecimento dos acontecimentos futuros), que declarou que a vitória caberia a Tebas, se Menoceu, filho de Créon, se oferecesse como vítima voluntária. Ao saber disso, o heróico jovem sacrificou a vida, no primeiro encontro. O sítio continuou, com alternativas de vitórias e derrotas para os dois lados. Finalmente, concordou-se que os irmãos decidissem a disputa em um combate singular. Os dois lutaram e ambos morreram. Os exércitos, então, reiniciaram a luta e afinal os invasores foram obrigados a ceder e fugiram, deixando seus mortos insepultos. Créon, tio dos dois príncipes mortos, tornou-se rei e mandou enterrar Etéocles com todas as honras, mas deixou o corpo de Polinice onde caíra, proibindo, sob pena de morte, que alguém o enterrasse. Antígona, a irmã de Polinice, ficou indignada, ao ter notícia do revoltante edito que entregara o corpo do irmão aos cães e aos abutres, privando-o dos ritos que eram considerados essenciais ao repouso dos mortos. Sem se deixar abalar pelos conselhos de uma irmã afetuosa, mas tímida, resolveu desafiar a sorte e enterrar o corpo com suas próprias mãos. Foi presa enquanto fazia isso e Créon deu ordens para que a enterrassem viva por haver desobedecido deliberadamente um edito solene da cidade. Seu amante, Hêmon, filho de Créon, incapaz de salvá-la, não lhe sobreviveu, suicidando-se. Antígona é assunto de duas belas tragédias do poeta grego Sófocles. A Sra. Jameson, no livro Caracteres das Mulheres, compara seu caráter ao de Cordélia, do Rei Lear, de Shakespeare. A seguinte passagem de Sófocles refere-se às lamentações de Antígona, quando a morte afinal livra Édipo de seus sofrimentos:

Como haveria de querer a vida?
O próprio sofrimento menos duro
Era ao seu lado. O que era insuportável
Junto dele eu teria tolerado.
Oh meu querido pai! Na sepultura
Como estás e tão velho como estavas,
Quero-te ainda e hei de querer-te sempre.

PENÉLOPE

Penélope é outra dessas heroínas míticas, cuja beleza é mais do caráter e da conduta que do corpo. Era filha de Icário, um príncipe espartano. Ulisses, Rei de Itaca, pediu-a em casamento e conquistou-a, entre todos os competidores. Quando chegou o momento em que a jovem esposa deveria deixar a casa paterna, Icário, não tolerando a idéia de separar-se da filha, tentou persuadi-la a permanecer ao seu lado e não acompanhar o marido a Itaca. Ulisses deixou a Penélope o critério da escolha e ela, em vez de responder, baixou o véu sobre o rosto. Icário não insistiu, mas, quando ela partiu, levantou uma estátua do Pudor no lugar onde se haviam separado. Ulisses e Penélope não haviam gozado sua união por mais de um ano, quando tiveram de interrompê-la, em virtude dos acontecimentos que levaram Ulisses à Guerra de Tróia. Durante sua longa ausência, e quando era duvidoso que ele ainda vivesse, e muito improvável que regressasse, Penélope foi importunada por inúmeros pretendentes, dos quais parecia não poder livrar-se senão escolhendo um deles para esposo. Penélope, contudo, lançou mão de todos os artifícios para ganhar tempo, ainda esperançosa no regresso de Ulisses. Um desses artifícios foi o de alegar que estava empenhada em tecer uma tela para o dossel funerário de Laertes, pai de seu marido, comprometendo-se em fazer sua escolha entre os pretendentes quando a obra estivesse pronta. Durante o dia, trabalhava nela, mas, à noite, desfazia o trabalho feito. E a famosa tela de Penélope, que passou a ser uma expressão proverbial, para designar qualquer coisa que está sempre sendo feita mas não se acaba de fazer. O resto da história de Penélope será contado quando narrarmos as aventuras de seu marido.

2 comentários:

  1. Menino... Que blog gostoso de ler.
    Voltarei aqui mais vezes, com mais tempo.
    Feliz 2011
    com carinho
    Fátima

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  2. Olá! Curti o seu blog. Tenho um com poesias sobre mitologia. Faz uma visitinha!

    http://olamentodeorfeu.blogspot.com

    Romeu!

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